Aquela história de que as maiores inovações são as mais simples ainda vale.
Não é super simples clicar no botão “Like” do Facebook e mostrar na hora, tudo o que você gosta para os seus amigos? Filmes, músicas, lugares, marcas e até anúncios que mais nos agradam?
Tudo isso vai automaticamente para o seu perfil e, somado aos seus dados pessoais, dizem quem você é. Ou, pelo menos, quem você gostaria de ser.
Por trás deste modo bacaninha de compartilhar suas preferências existe uma disputa épica e sangrenta pelo trilionário negócio de display advertising. Sim, porque neste negócio mata-se e morre-se para saber o que você gosta e tem intenção de comprar, para que os anúncios sejam cada vez mais personalizados, mais clicados e mais eficientes.
O botão “Like” é a arma que pode acelerar a posição do Facebook neste mercado. Especialmente agora que o botão pode ser utilizado por qualquer site, mesmo fora do Facebook, está brotando botão “Like” em todos os cantos. Já reparou? Deveria…
A personalização é o Santo Graal do anunciante. E nada ajuda mais do que nós mesmos apontarmos espontaneamente e de graça do que gostamos. Perfeito!
Só tem um problema…
Nós realmente gostamos destas coisas? Estamos falando a verdade? Já compramos algo da marca que dissemos gostar? Já fomos ao restaurante que clicamos o “Like”? Iremos algum dia? Ou fazemos isso porque é cool mostrar aos amigos que gostamos de coisas bacanas e estamos antenados com as marcas mais descoladas?
Neste momento vejo 26 amigos do Facebook que clicaram e disseram”gostar” da Starbucks. Nenhum clicou no Mc Donald’s. Será que ninguém que conheço come Big Mac’s ou Nuggets? Estariam vivendo apenas de Frapuccinos? Ou será que o Starbucks é mais cool que o Ronald Mc Donald? Ao menos para os brasileiros…
Aí é que mora o perigo.
Nós queremos moldar a maneira como as outras pessoas nos enxergam. Até aí, nada de errado. A questão é quando esse dado bruto entra no gazilhão de terabytes de informações coletadas, que são analisadas pelos veículos e anunciantes, que acabam tomando decisões estratégicas com base nestas informações.
Resultado final: A campanha é personalizada sim, mas não para nós, mas para quem gostaríamos de ser.
Corrigindo: como eu virei, não … como NÓS viramos!
Sim, todos nós subitamente viramos Brad Pitts e Angelina Jolies nesse mundo conectado e descontrolado.
A era das figuras públicas reclamarem da exposição excessiva provocada pelos paparazzi observando sua vida pessoal e documentando momentos íntimos agora soa pré-histórica.
O antigo conceito de “celebridade” agora estende-se à todos nós, pobres mortais.
Para usuários de Facebook, Twitter e outras redes sociais isso é mais óbvio, claro, já que eles próprios contribuem voluntariamente com material para essa exposição. Mas a mídia social é apenas a ponta deste iceberg e, talvez, apenas uma inofensiva teatralização da vida.
Estou falando aqui da imensa lupa digital que se coloca sobre tudo o que fazemos no nosso cotidiano. A começar pela troca de um simples email.
Seus e-mails não são só seus
Normalmente, quando enviamos um e-mail, temos em mente um ou mais destinatários certos para aquela mensagem e arquivos.
Não queremos que outras pessoas leiam uma mensagem pessoal, da mesma forma que nunca gostamos de ter nossas cartas abertas por outras pessoas (isso costumava ser crime, no mundo analógico).
Pura ilusão. Tem muita gente lendo suas mensagens.
A começar por alguns provedores do serviço. Em 2004, fiquei feliz e entusiasmado ao experimentar o Gmail. Disparei convites da versão Beta para os amigos e tudo ia bem, até o dia em que resolvi ler os Termos de Uso do serviço, em especial estes trechos:
11.1 Ao enviar, publicar ou exibir conteúdo, o usuário concede ao Google uma licença irrevogável, perpétua, mundial, isenta de royalties e não exclusiva de reproduzir, adaptar, modificar, traduzir, publicar, distribuir publicamente, exibir publicamente e distribuir qualquer Conteúdo que o usuário enviar, publicar ou exibir nos Serviços ou através deles. Essa licença tem como único objetivo permitir ao Google apresentar, distribuir e promover os Serviços e pode ser revogada para certos Serviços, conforme definido nos Termos Adicionais desses Serviços.
11.2 O usuário concorda que essa licença inclui o direito do Google de disponibilizar esse Conteúdo a outras empresas, organizações ou indivíduos com quem o Google tenha relações para o fornecimento de serviços licenciados e para o uso desse Conteúdo relacionado ao fornecimento desses serviços.
Ou seja, além de ter acesso e ler todo o meu conteúdo, quer dizer que eles podem modificá-lo, distribuí-lo e publicá-lo, tudo isso com uma licença gratuita e perpétua que concedi ao aceitar os Termos de uso? No, thanks.
O Big Brother está também offline
E você acha que apenas quem está na Internet fica exposto a isso?
Pense de novo. Basta usar um cartão de crédito.
Graças às redes neurais e o imenso banco de dados onde guardam todas as suas transações, estas empresas conseguem traçar seu perfil e até fazer previsões sobre a sua vida. Por exemplo: elas conseguem saber se você irá se separar até 2 anos antes disso acontecer. 2 anos antes! Tudo por causa da mudança de hábitos confrontada com o histórico de outros clientes. O índice de acerto? Inacreditáveis 98%.
Sim, as empresas gestores de cartões de crédito sabem mais sobre você do que a sua esposa, o seu terapeuta ou o seu melhor amigo.
O conceito de “celebridade” vai pro espaço novamente. A Visa sabe tanto sobre a vida do Brad Pitt quanto a sobre a minha ou a sua.
Acho que Sting não tinha exatamente isso em mente quando “Every breath you take” foi composta. Mas bem que “I’ll be watching you” se encaixa bem como a missão não-declarada destas empresas.
Será que, em alguns anos a Nota Fiscal Paulista também conseguirá saber tanto sobre você?
Faça a pose
O olhar indiscreto parece onipresente.
Do momento que eu coloco o pé fora do meu apartamento até sair do prédio, sou filmado de 3 a 5 vezes, dependendo do caminho que faço.
Tudo isso antes de chegar à rua.
Na rua, então, nem se fala. Câmeras por todos os lados. E em todos os celulares. Salve-se quem puder.
E os voyers digitais fazem a festa. Basta um clique para uma imagem destas ganhar alcance global. Seja a Paris Hilton ou a sua vizinha. Scary.
No início dos anos 90, a Madonna já previa a proliferação dos olhares onipresentes em “Vogue” - Strike a pose.
Onde e quando. Onde, principalmente
Com a obsessão por Geotagging, a lupa digital sob a qual vivemos ganha contrastes ainda mais interessantes.
Outro dia me perguntaram se eu tinha gostado de tal restaurante. Achei estranho, porque não me lembrava de ter comentado que já tinha ido lá. Nem precisava. O amigo que estava comigo fez o “check-in” no Foursquare, informando que eu também estava lá e publicou. Não precisou mais do que isso. Caramba, me senti como se tivesse um GPS subcutâneo…
Não sou totalmente contra esse Foursquare. Tem coisas úteis, como descobrir lugares interessantes perto de onde você está no momento, recomendados por outras pessoas. Mas transformar isso num rastreador humano já beira o exagero.
Já não basta o Sem Parar, que sabe para onde e quando você viaja, vai ao Shopping, etc?
Aquele lugar cantado pelo U2 “Where the streets have no name” parece cada vez mais longe da realidade. Todas as ruas tem nome e sobrenome, recomendações de amigos no Foursquare e sabem quando você está lá.
O Big Brother pode até te mandar embora
Pouco adianta ter um perfil todo profissional e comportado no Linkedin e “soltar a franga” no resto da sua presença digital. Se até o FBI está xeretando as redes sociais, imagine o RH da sua empresa ou novo pretenso empregador.
Desnecessário comentar o deprimente recente episódio da Locaweb. Muitos outros acontecerão em breve. Por falta de orientação das empresas e, principalmente, pela falta de noção do usuário.
O resultado: Buuuurn!
Muita gente diz que é impossível ter controle sobre a sua reputação online, e que, se as empresas realmente focarem nisso, faltarão pessoas para serem contratadas. Afinal, todos temos o nosso momento de indiscrição.
Claro que você pode (e deve) usar esse movimento a seu favor e mostrar o que você tem de bom para oferecer, de forma natural e não-robótica. Afinal, ninguém é bobo.
And now, what?
A sociedade mudou. E não tem volta. Quem tem que se ajustar somos nós.
Devemos simplesmente aceitar conscientemente muitas dessas mudanças em torno da nossa privacidade, mesmo como o potencial que tem de nos deixar obsessivos. Até porque não temos muita opção, pra falar a verdade.
Por outro lado, temos que olhar com mais cuidado para as ferramentas e atividades onde nós sim, temos a opção de controlar melhor o que é registrado e armazenado e, esperar que num futuro próximo, todo o sistema, incluindo o legal, se ajuste para refletir o novo momento.
Nesse meio tempo, enjoy it! Sem medo! O importante é manter a espontaneidade, acima de tudo.